Entre o “deserto verde” e o lítio:
a resistência quilombola no
Vale do Jequitinhonha

May 21, 2026

XXXXX

Ao entrar pelas estradas do Vale do Jequitinhonha, no nordeste de Minas Gerais, a paisagem parece infinita. Quilômetros e quilômetros de eucaliptos enfileirados ocupam o horizonte, formando um corredor monocromático que substitui a diversidade do cerrado e das matas nativas. São árvores altas, silenciosas, imóveis. Não há pássaros pousados nos galhos. Não há sombra de fauna atravessando os troncos retos. O vento passa, mas a vida parece ausente. O que muitos chamam de “floresta plantada” é conhecido pelas comunidades como deserto verde.

É nesse cenário que comunidades quilombolas do Vale se reuniram no final de abril, em um encontro organizado pela COQUIVALE – Comissão das Comunidades Quilombolas do Vale do Jequitinhonha (colaboradoras do Intercâmbio de Recursos Comunitários) e Instituto Maíra (membros da Coalizão) para fortalecer estratégias coletivas frente ao avanço dos projetos de monocultivo de eucalipto e mineração de lítio sobre seus territórios.

Mais do que um encontro político, foi um espaço de memória, denúncia, formação e reafirmação da vida coletiva. Em um território historicamente marcado pela exploração, as comunidades discutiram como enfrentar novas formas de expropriação travestidas de “transição energética”, “desenvolvimento” e “economia verde”.

 

Um vale de ancestralidade, resistência e memória

 

O Vale do Jequitinhonha é frequentemente retratado de fora como um “vale da miséria”. Mas essa narrativa ignora sua riqueza cultural, histórica e territorial. Antes da colonização portuguesa, a região era habitada por povos indígenas. A partir do século XVI, a mineração colonial trouxe expulsões, massacres e a escravização de populações indígenas e africanas.

Da resistência à escravidão nasceram quilombos que permanecem vivos até hoje: territórios construídos sobre laços comunitários, agricultura familiar, medicina tradicional, sementes crioulas, religiosidade e uso coletivo da terra.

As falas durante o encontro insistiam em uma ideia central: o território não é apenas espaço físico. É memória, ancestralidade e continuidade. Em reflexões sobre o “corpo-território e ancestralidade”, a discussão retomou a oposição entre dois mundos: “o mundo da destruição e o mundo quilombola”. A história quilombola foi descrita como “a história da verdade”, mas também como uma história frequentemente invisibilizada, apagada e mantida dentro das comunidades, sem alcançar os espaços de poder. 

“Se a ancestralidade é território, o esquecimento é violação territorial”, afirmou uma liderança durante o plenário.

A necessidade de gritar, defender direitos e se unir foi simbolizada pela imagem das formigas: “a formiga sozinha você esmaga, mas ninguém pode com o formigueiro”. A cantiga “pisa ligeiro, pisa ligeiro, quem não pode com formiga não assanha o formigueiro” foi retomada como expressão dessa força coletiva.

As comunidades lembraram parteiras, lideranças e pessoas que mantiveram vivos os saberes tradicionais. O nome de Ale do Rosário, importante articulador quilombola da região, foi constantemente evocado como símbolo dessa continuidade da luta.

Ao mesmo tempo, o Vale também é marcado por paisagens de enorme beleza: serras, rios, chapadas, roças, quintais agroecológicos e comunidades onde ainda se produzem farinha, rapadura, beiju, feijão, milho crioulo e remédios tradicionais. Uma riqueza invisibilizada por décadas de políticas que trataram a região como território de sacrifício.

Além da destruição, invisibiliza-se o papel fundamental que os povos quilombolas desempenham na proteção da natureza. A narrativa promovida pelos grupos de poder historicamente tenta responsabilizar as comunidades quilombolas pela degradação ambiental, quando estudos mostram justamente o contrário: mais de 58% dos territórios geridos por essas comunidades estão entre os 10% com maior biodiversidade do planeta.

 

Abertura do encontro com um canto coletivo, marcando a presença das pessoas quilombolas participantes e dos territórios de onde vieram

 

O encontro da COQUIVALE: unir para resistir

 

O encontro reuniu comunidades afetadas por monocultivos de eucalipto, mineração de lítio, linhas de transmissão e ameaças territoriais diversas. Muitas lideranças enfatizaram que os conflitos não podem mais ser enfrentados de forma isolada.

“Quando o povo se une, a resistência é maior”, repetiram diferentes participantes ao longo dos dois dias.

As discussões abordaram direitos territoriais, consulta livre, prévia e informada (CLPI), estratégias jurídicas, impactos ambientais, comunicação comunitária e financiamento internacional dos projetos. No segundo e terceiro dias do enciontro as discussões se aprofundaram na proteção territorial, ameaças contra lideranças, autodeterminação e organização política das comunidades. 

Um dos temas centrais foi a dificuldade de acesso à informação. Muitas comunidades relataram que empresas chegam oferecendo reuniões técnicas incompreensíveis, promessas de emprego e compensações pontuais, enquanto pressionam moradores a assinarem documentos sem plena compreensão.

Também houve forte debate sobre o papel do marketing corporativo.

“O site da empresa mostra que só estão fazendo coisas boas. Isso é marketing”, resumiu uma liderança.

As comunidades estabeleceram conexões com experiências de outros territórios da América Latina, especialmente regiões do chamado “triângulo do lítio”, no Chile e na Argentina, percebendo padrões semelhantes de exploração e promessas de desenvolvimento que raramente se concretizam para as populações locais.

 

O avanço do eucalipto no Vale

 

A expansão do monocultivo de eucalipto no Jequitinhonha se consolidou ao longo das últimas décadas como parte de políticas de “desenvolvimento” voltadas à siderurgia, celulose e bioenergia.

A principal empresa envolvida é a Aperam BioEnergia, que atua há décadas no Vale com grandes áreas de monocultivo voltadas à produção de carvão vegetal para a cadeia do aço. A expansão da Aperam BioEnergia conta com apoio financeiro de R$1,5 bilhão da International Finance Corporation (IFC), braço privado do Banco Mundial.

Outras empresas do setor florestal citadas pelas comunidades incluem Veracel Celulose, Eucatex, Florestal Bioflor, Reflorestar Soluções Florestais, Eucaminas e Jequitinhonha Madeiras.

Lideranças denunciaram que o financiamento trata a expansão do projeto como algo isolado, ignorando décadas de impactos acumulados no território. Durante as falas, moradores relataram mudanças profundas na paisagem e na disponibilidade de água.

“A chapada tinha muita água há 50 anos atrás.”

As comunidades descrevem o eucalipto como uma árvore “estranha” ao território: uma espécie que não se encaixa ao ecossistema da região, de crescimento rápido, que por consequência chupa toda a água do solo e foi selecionada precisamente por sua capacidade industrial.

 

A nova fronteira do “lítio verde”

 

Mais recentemente, o Vale passou a ser apresentado como uma nova fronteira estratégica da mineração de lítio, mineral central para baterias de carros elétricos e tecnologias da chamada transição energética. 

Empresas nacionais e internacionais avançam rapidamente sobre a região:

  • Sigma Lithium, responsável pelo complexo Grota do Cirilo entre Itinga e Araçuaí;
  • CBL;
  • Atlas Lithium;
  • Lithium Ionic;
  • Pilbara Minerals;
  • BYD.

As comunidades denunciaram que o discurso do “lítio verde” esconde processos já conhecidos de pressão territorial e concentração econômica.

A mina Grota do Cirilo, da Sigma Lithium, foi mencionada diversas vezes durante o encontro. Lideranças relataram preocupação com a proximidade da mina de comunidades quilombolas e com a retomada das explosões após a renovação de licenças.

Também foi discutido o financiamento público para a expansão desses projetos, incluindo aportes do BNDES para o setor de lítio.

Ao mesmo tempo, participantes questionaram os benefícios efetivos prometidos pelas empresas.

“A empresa vende milhões em rejeitos do lítio. O que nós queremos para mudança no território não importa?”

Muitas falas também conectaram o lítio à crise hídrica do Vale. Em um território já afetado por décadas de monocultivo e degradação ambiental, a mineração é percebida como mais uma camada de pressão sobre recursos naturais escassos.

 
O papel dos bancos de desenvolvimento

 

Bancos multilaterais como o Banco Interamericano de Desenvolvimento vêm consolidando seu papel na expansão da mineração de minerais considerados estratégicos para a chamada transição energética. Em fevereiro de 2026, o BID lançou o projeto “Geological Mapping of Critical Minerals in Brazil”, voltado ao mapeamento de depósitos de lítio, grafita e elementos de terras raras em Minas Gerais e Bahia. 

 

O Vale do Jequitinhonha foi definido como uma das áreas prioritárias da iniciativa, reforçando sua posição como fronteira estratégica para novos investimentos e para a ampliação da exploração mineral na região.

 

O projeto busca identificar novos alvos de exploração e acelerar a inserção do Brasil nas cadeias globais de minerais críticos. No entanto, como tem ocorrido repetidamente no território, as comunidades potencialmente afetadas não foram consultadas previamente sobre a realização desses estudos, apesar de os bancos públicos de desenvolvimento possuírem salvaguardas socioambientais relacionados ao direito à consulta livre, prévia e informada das comunidades tradicionais.

 

Rosária Ribeiro da Rocha Costa, professora e presidenta da COQUIVALE

 

“Nunca deixar de lutar”

 

Apesar das denúncias e do peso dos conflitos, o tom predominante do encontro foi de fortalecimento coletivo.

As falas das lideranças quilombolas insistiam que a resistência nasce da comunidade, da memória e da organização.

Rosária Costa, presidenta da COQUIVALE, resumiu esse espírito ao afirmar:

“Quando uma comunidade passa por uma situação, todas passam. Todos nós deveríamos dar as mãos.”

Maria Eliane, do Quilombo São João Marques, falou sobre o medo de ver o território desaparecer, mas também sobre a importância de permanecer.

“Nosso território é sagrado.”

Ao longo dos dois dias, ficou evidente que as comunidades não estão apenas denunciando impactos ambientais. Estão defendendo outra visão de futuro para o Vale do Jequitinhonha — uma baseada na permanência no território, na agricultura comunitária, na água, nas sementes crioulas, na memória ancestral e na autonomia coletiva.

Enquanto governos e empresas enxergam o Vale como corredor de commodities minerais e florestais, as comunidades quilombolas seguem reafirmando que o território não é vazio, nem disponível.

É casa. É história. É continuidade.

 

Roda comemorando o encontro e despedida